A decoração que acontece com o tempo do filme “Aquarius”

(Este texto foi publicado pela primeira vez em 25 de julho de 2018.)

Cada vez mais (e mais) me atraio por decorações despretensiosas, que passam bem longe do “combinadinho” como os espaços planejados de um showroom. Já estou convencida de que a beleza de um lugar tem muito mais a ver com a sensação que ele provoca do que com uma lista de convenções estéticas.

Não ceder ao rompante de ter tudo organizado o mais rápido possível é tarefa das mais difíceis no processo decorativo. Mas esse esperar pode ser muito mais recompensante do que se imagina, sabe por que?  Porque a decoração que acontece aos poucos traz uma carga de personalidade bem característica daquilo e daqueles que sabem usar o tempo ao seu favor.

É como o processo de colecionar.
Uma coleção requer curadoria apurada, esperas, circunstâncias inusitadas, paciência, acasos, sorte, e leva tempo para se formar. Uma coleção bacana traz com ela um bom par de histórias sobre aquisições e motivações que o levaram a adquirir cada peça – uma mais diferente do que a outra. E o mais bacana: ela nunca acaba. Assim é a decoração.

Coisas com histórias são sempre mais interessantes e deixam de ser apenas coisas.

No filme brasileiro “Aquarius” temos uma boa mostra de decoração que, ao que parece, a única obediência seguida foi o curso natural do tempo. O resultado é um repertório de elementos com idades díspares mas que conversam harmoniosamente entre si e que juntos ilustram o trajeto de uma história de vida.

Além disso, a produção marca a relação quase que orgânica de uma moradora e seu lar, ratificando o conceito de que uma casa não se resume a apenas um quadrado de cimento e tijolos.

As narrativas particulares de uma residência, que vão desde a sua construção (ou obtenção) passando pela escolha de cada peça e ainda seu infindável acervo de casos e situações triviais do dia a dia, agregam um valor inestimável ao espaço onde se habita. Para Clara – a protagonista de Aquarius –  assim como para muitos, a memória afetiva é algo que não se põe preço, não se quantifica e é no que consiste a verdadeira beleza de um lugar.

Sobre o filme:
Clara é uma crítica de música e jornalista que exala personalidade por todos os poros. Daquelas pessoas que não se aderem a modismos ou tendências a não ser que elas tenham uma boa dose de cabimento. Dona de uma história que passa pelo tratamento de um câncer, morte de entes queridos e abstenções familiares em decorrência de seu trabalho, ela carrega consigo um misto de força e segurança extraordinário, bem típico daqueles que tiveram atitude e garra para enfrentar os desafios impostos pelo destino.
E é naquela altura da vida, onde tudo parece se acalmar (filhos criados, dramas superados, estabilidade emocional), que a Bonfim Engenharia surge em seu caminho.
Uma empresa de olho (bem grande) na localização super privilegiada do Edifício Aquarius – lugar onde a jornalista vive e viveu desde sempre.
Movido pela ganância e com a desculpa esfarrapada do progresso (progresso pra quem?), o arquiteto responsável pelo projeto – que consiste em transformar o simpático prédio de Clara em uma torre de 30 andares de design duvidoso e nome cafona – usa de práticas escusas na tentativa de forçá-la a vender seu imóvel, dando como garantia a certeza de um estilo de vida melhor e moderno.
Sendo a única moradora do prédio que não caiu no “canto da sereia” da construtora, Clara passa então a vivenciar uma série de situações desagradáveis e até humilhantes propositalmente armadas para que ela desista de estar ali.
O que os executivos da Bonfim Engenharia não esperavam era que aquela senhora de fala mansa e serenidade no olhar se tratava de uma mulher forjada por uma história de vida nada fácil, que sempre lhe exigiu perseverança e potência para driblar as adversidades que cruzaram o seu caminho.
O filme trata sem desvios a questão impiedosa da especulação imobiliária (baseada numa história real, na cidade do Recife) mas ao mesmo tempo retrata de uma maneira super humana e com pequenas doses de doçura a vida de uma mulher que além de colecionar memórias afetivas de família em seu adorável apartamento, é imbuída de coragem e sabedoria até o talo para fazer valer o que ela quer e, principalmente, o que ela acredita.

– A FACHADA

1980:

O Edifício Aquarius na vida real se chama “Oceania” e se encontra na Avenida Boa Viagem, na praia do Pina, no Recife.  O professor Múcio Jucá do Departamento de Arquitetura e Ubanismo da Unicap na página “Prédios do Recife” no FaceBook, explica que: “-o edifício Oceania representa um dos últimos remanescentes desse tipo arquitetônico de edifícios residenciais multifamiliares de meados do século XX. O Oceania apresenta características tipológicas de uma fase de transição dos residenciais multifamiliar, neste caso, mais próxima da arquitetura de casas tradicionais do que edifícios construídos nas décadas seguintes.
O conjunto está implantado em “L”, garantindo um amplo pátio interno que configura a relação casa – quintal. A configuração de térreo (recuado) mais dois pavimentos, garante a horizontalidade e proporção mais próxima da residência tradicional. Outra peculiaridade é o uso de coberta em telha cerâmica, com beirais. Além disso, o edifício foi concebido com afastamento frontal, para os apartamentos voltados para a Avenida Boa Viagem, e afastamento nulo, ou no paramento, para a rua lateral. Este afastamento frontal permite, aos apartamentos térreos, usufruir de jardins típicos de residências, garantindo uma ambiência bastante peculiar.

2017:

Quando o tempo nem sempre ajuda: as janelas de guilhotina em madeira, as venezianas e os guarda-corpos decorados deram lugar a feiosas esquadrias de alumínio.  

Em compensação, foram mantidos o jardim frontal – para a alegria dos moradores do térreo – e belíssimo telhado colonial que dá ao prédio o aspecto de “casinha”.

A SALA DE ESTAR:

1980:

2017:

Muito diferente de hoje em dia, o apartamento foi construído numa época onde a prioridade ainda era o bem-estar do morador. A sala tem tamanho digno e é divida em dois ambientes: estar e jantar como vemos nas fotos da festa. Com o passar dos anos, a área destinada às refeições dá lugar a uma linda sala de música onde hoje ficam o piano, a vitrola e a coleção de vinis da crítica de música. Vale destacar o olhar aguçado da proprietária para as peças que não foram descartadas apesar das repaginadas que o décor sofreu.

Por outro ângulo: a mesinha lateral de jacarandá e tampo de mármore lá dos anos 60 faz contraponto com o sofá contemporâneo de linhas retas. A cor neutra do estofado permite que as almofadas com estampas ikat e o tapete com ares do oriente sejam super coloridos. A TV não tem protagonismo e quase se esconde atrás da coluna que separa a varanda. Duas cadeiras THONET (Michael Thonet) posicionadas de frente para o sofá facilitam a conversa e completam o ambiente do estar. A sala de jantar foi lançada para mais perto da cozinha como vemos ao fundo.

Os livros que se acumulam (graças ao tempo!) fizeram com que o estar ganhasse estante de alvenaria branca. Já falamos por aqui o quanto livros alinhados em prateleiras enchem um ambiente de beleza e personalidade.
O vão no centro do móvel foi preenchido com tapeçaria colorida, plantas e esculturas.
Dica: para dar um efeito visual interessante na estante, não tenha medo de misturar elementos de diferentes formas e alturas.

Na linha de transição da varanda para a sala, cadeira de madeira e couro natural com design moderno que muito lembra a SAFARI do suéco Arne Norell.

– A SALA DE MÚSICA:

As estantes sob medida organizam as coleções de discos (e que coleção!!!) da jornalista e fazem vez de moldura para o antigo piano. O chão frio de cerâmica (um pouco desprezado ultimamente) acaba por ser um revestimento bastante adequado para o clima quente característico do Nordeste brasileiro. O tapete na área da sala de música auxilia na acústica do ambiente. E se você é amante de peças de design já percebeu que Clara nutre a mesma paixão, em especial por poltronas e cadeiras. Aqui, na sala de música, o destaque vai para a poltrona MOLE (Sérgio Rodrigues).

Clara não se rendeu às tecnologias digitais de CD’s e MP3. É na sua antiga vitrola que a jornalista põe para tocar a trilha que embala a sua vida. O aparelho fica a vista e não escondido dentro de móveis desconjuntados e arcas de madeira como muito se vê por aí.
Tapeçarias funcionam bem na parede, se emolduradas ganham ainda mais importância.
Embaixo da janela, as cadeiras estofadas com tecido retrô engordam a coleção de peças de design da dona do apartamento.

– A SALA DE JANTAR:

Posicionada mais perto da cozinha, a sala de jantar minimalista conta com mesa de tampo de vidro que agrupa as cadeiras tubulares B32 (Marcel Breuer). O pôster tamanho GG do filme Barry Lyndon (S.Kubrick) de 1975 se encarrega de preencher o vazio da parede branca. Luz pendente de mosaicos de vidro e no chão, a simplicidade elegante do tapete de sisal.

O nicho virado para a sala de estar tem porta de vidro para exibir de propósito a coleção de louças antigas.

O armário de madeira que pertenceu a tia Lúcia, é daquelas relíquias de família que trazem uma carga de afetos e lembranças inestimáveis. Muito versátil, ele vai da sala de jantar ao quarto, podendo ainda servir de aparador no hall de entrada ou até mesmo de paneleiro numa cozinha super rústica. Com design atemporal, é o tipo e mobília que só melhora com o tempo!

– A COZINHA

Decoração bacana para mim envolve entre muitas coisas, uma boa dose de imprevisibilidade. Um quadro não necessariamente com a temática de comida (Femme III – Miró, 1965) e um boneco gigante de madeira enfeitando a parede dos temperos são dois elementos surpresa que deixaram a cozinha da Clara como uma assinatura que é só dela!

Falando em elementos inusitados, não posso deixar de falar sobre os cobogós usados um pouco acima do frontão da pia.

Ao passo que fazem uma pontuação cênica super bem sacada (os cobogós foram criados em Pernambuco, onde o filme se passa) trazem também a questão: seriam práticos numa casa “de verdade”? Por serem vazados, proporcionam ao ambiente ventilação e luz natural em abundância nos dias ensolarados. Maaaaas… e quanto chove??? E a poeira que vem da rua? E os insetos? Questões a serem consideradas caso você tenha se inspirado nesse clássico da arquitetura brasileira.

– A VARANDA:

Poucas coisas representam tão bem o morar brasileiro quanto uma boa rede rendada. Para ler um livro, ouvir um disco, namorar ou tirar aquele cochilo. E se você tiver a sorte de ter o mar como vizinho, abra um pouquinho a janela pra que a brisa e o barulho das ondas embale os seus sonhos.

Quando não está sendo usada, a rede fica recolhida dando espaço para plantas e outros aparatos como o lindo banco balinês e as esculturas de madeira.

– A casa à noite:

Já não é novidade pra ninguém que aqui no ACDC a gente é defensor dessa camada de luz, a indireta, responsável por proporcionar um clima super intimista e aconchegante na casa. Nem vou me estender muito, apenas deixá-los com essa sequência de fotos noturnas onde as claridades difusas deixam o apartamento ainda mais especial…
… e Sônia Braga mais diva!

Ah! Uma dica preciosa: use SEMPRE luz quente de baixa voltagem. 😉

Aquarius (2016)
CinemaScopio/SBS/GloboFilmes
Escrito e dirigido por: Kleber Mendonça Filho
Produzido por: Emilie Lesclau, Said Ben Said, Michel Merkt
Direção de arte: Juliano Dornelles e Thales Junqueira

O estilo BOHEMIAN (BOHO) e arquitetura IBICENCA do filme “Loving Ibiza”

(Este texto foi publicado pela primeira vez em 04 de julho de 2018)

Em tempos de minimalismo, design nórdico e consumo consciente, talvez a máxima “mais é mais” esteja bastante fora de moda e em pouco tempo vai estar beirando o politicamente incorreto.

Enquanto isso, na estética bohemian (boho) ela segue como um emblema, como um objetivo a ser alcançado: as casas que aderem ao mais flamboyant dos estilos não se afinam com ausências e não dão espaço para o espaço. Muito pelo contrário! Nelas, o “vazio” e o “clean” não têm conotação de elogio nem merecem ser enaltecidos. Eles se rendem ao “over” e ao “tudo junto e misturado” sem causar um pingo de embaraço àqueles que aderem à extravagancia congênita do boho.

O ponto mais fascinante desse estilo é a flexibilidade de seus critérios. Nada nele é rijo ou severo. É uma estética que valoriza o dissonante, o divergente; como se de algum modo o caos fizesse sentido. Uma verdadeira ode ao ecleticismo.

Você pode até arriscar em ter um ambiente com pitadas ou com uma pegada meio boho. Mas para segurar uma casa inteirinha nesse gênero é necessário mais do que um ou outro objeto étnico posicionado num canto estratégico da sala de estar. É uma linguagem exclusiva para pessoas muito singulares, que carregam consigo uma frugalidade autêntica, um estilo de vida nada tradicional e que não se empenham em fazer parte de nenhum padrão social pré-estabelecido.

A palavara “bohemian” foi cunhada no século XIX na Europa e era designada a um específico grupo de indivíduos errantes provenientes da região da Bohemia (leste da antiga Tchecoslováquia). Um pouco mais tarde, o termo passaria também a designar pessoas desprovidas de nobreza material e vidas não convencionais como artistas, escritores, jornalistas, músicos e atores.

Os boêmios tinham como prioridade a busca constante do prazer e a autoindulgência.  Pregavam o amor livre e por muitas vezes escolhiam em se manter pobres. Para fugir dos olhos inquisitivos daqueles que desprezavam seu modo de ser e agir, começaram a se concentrar em guetos e, consequentemente, por vezes, foram marginalizados.

A ilha de Ibiza serviu de abrigo por um tempo a um desses grupos de excluídos.
Na verdade, há dois mil anos, o local vem sendo frequentado pelos mais diversos povos, das mais diversas etnias.
Quando colônia de fenícios – conhecidamente nômades com dom para artes e aventuras – foi entreposto das maiores rotas comerciais da antiguidade. Em seguida vieram os púnicos, os vândalos, os romanos e os árabes.

Ao ser invadida pelos espanhóis em 1235, adotou o catalão como língua oficial. A partir de 1930, Ibiza começa a abrigar nas ruelas de seu bairro cigano de Sa Penya uma onda de artistas e intelectuais de vanguarda fugidos dos governos opressores de Hitler e Stalin e do frio europeu.

Foi na década de 50 que o turismo na ilha floresceu com as famosas festas de jazz nas areias das praias de Figueretas trazidas dos clubes noturnos de Barcelona. Rapidamente atraiu viajantes de todo mundo.

Como é de se imaginar, uma pequena ilha não passaria incólume a visitações nada convencionas. De ciganos e piratas a contrabandistas de seda e comerciantes de incenso. De hippies e beatniks a cientistas comunistas fugidos da Segunda Guerra. Todos que lá estiveram, deixaram sua marca e consagraram Ibiza com uma estética incrivelmente multicultural. Foi esse lugar bastante sui generis que hospedou o cenário mais boho que eu já vi no cinema, o do filme holandês “Verliefd op Ibiza”.

Sobre o filme:
Comédia no melhor estilo “o filme do verão”. Uma das ilhas paradisíacas mais badaladas do Mediterrâneo se prepara para mais uma temporada de férias. Turistas invadem seus clubes e hotéis com um único objetivo: um veraneio de loucuras e agitação.  De jogadores de futebol frívolos e celebridades mais rasas que um pires à senhoras modernas e DJs wanna-be, a produção holandesa é recheada de clichês, estereótipos, diálogos bobinhos, música eletrônica e só emociona pelo cenário boho e pelos takes de imagens aéreas da ilha. Ilha que abriga Lex, um pop star aposentado e decadente que se prepara para receber a família para comemorar seu aniversário.
Em meio a desencontros forçados e situações que beiram o ridículo, Lex é confrontado o tempo todo pelos que o cercam por ser um homem crescido, porém desprovido de responsabilidade. O filme também conta com várias tramas paralelas, todas bem previsíveis a partir dos primeiros minutos que se desenrolam. Apesar dessa introdução pouco simpática, não posso deixar de pontuar a boa atuação dos atores e admitir que, sim, as trapalhadas de Lex – às vezes – arrancam risos. Vale acrescentar que alguma coisa definitivamente deu certo e agradou o público (e provam que eu ainda tenho muito para aprender sobre cinema): o filme, logo depois de sua exibição, virou série de TV.

Seja bem-vindo!

– A casa

La finca ibicenca” como são conhecidas as tradicionais casas de campo da ilha de Ibiza têm como características principais a sobriedade e a falta de elementos decorativos. Parte dessa identidade se explica pelo isolamento dos povos das ilhas do Mediterrâneo e seus escassos recursos. Na época em que foram construídas, era possível usar apenas o que estava ao alcance de seus criadores. Sendo assim, a finca ibicenca é uma edificação de arquitetura arcaica, formas quadradas e simples, com paredes espessas feitas de pedra, areia e argila, e telhados horizontais sustentados por vigas de madeira sabina. As fachadas são minimalistas e em sua maioria pintadas de cal. Por vezes podem ter o reboco exposto. As casas têm geralmente a entrada orientada para o sul, resguarda por uma montanha atrás para protegê-las dos ventos do norte.

Com o passar do tempo as propriedades foram se aperfeiçoando e se rendendo às exigências modernas como a inclusão de piscinas, jardins, varandas e pérgolas.

O hall de entrada:
Quando me perguntam se é realmente importante decorar um hall de entrada eu apenas respondo: – O hall é o primeiro e o ultimo cômodo que você vê quando visita uma casa. É o ambiente que vai provocar a primeira e a ultima impressão.
A partir daí, cada um tira suas próprias conclusões.

Eu sou do time que defende que o hall precisa ser extremamente prático e deve trazer uma pequena mostra do estilo de decoração da casa que está por vir.

Como era de se esperar, na residência de um roqueiro, os convencionais aparadores com bandeja para chaves, espelho e cabideiro para os chapéus deram lugar a objetos muito incomuns!

Com uma área relativamente grande, Lex pode se dar ao luxo de por ali sua coleção de livros, seu piano (!!!!!!) e uma poltrona estilo Bergère mostarda com uma bela manta indiana. Os adornos ficam por conta da arte abstrata e da luminária de chão dourada super dramática. A praticidade do cômodo foi garantida por um movelzinho que apoia chaves, correspondências e… as garrafas de cerveja antes dele de sair de casa!
Muita informação para um hall?? Sem dúvida! Mas lembre-se: no estilo boho, mais é sempre mais!

– A sala de estar:
Também chamada de “porxo” a sala de estar da finca ibicenca foi criada para ser um espaço público e servir de transição entre o exterior e as áreas privadas da casa. O porxo geralmente é maior cômodo de uma finca (perdendo só para a cozinha, às vezes) e é nele que vamos encontrar as maiores entradas de luz natural da casa.

Na estética boho, uma das coisas que mais me chama a atenção é que seus ambientes passam uma sensação de conforto e aconchego e estão sempre me convidando para ficar. Eu acho que a culpa é dos sofás que se apresentam invariavelmente com volume extra e formas mais arredondas além de acomodarem uma fartura de almofadas e mantas de estilos étnicos e cores quentes.

Os discos de ouro de Lex decoram a parede onde um nicho com prateleiras foi moldado no próprio concreto para acomodar os livros do cantor. No teto, um bom exemplo de como a mistura de objetos tão díspares consegue encontrar harmonia aceitável aos olhos: lustre clássico com peças de cristal divide a atenção com o mobile hippie de fitas e miçangas:

Gosto muito desse encontro da arquitetura rústica, das paredes com reboco irregular e escadaria de pedra com móveis tradicionais como a escrivaninha retrô e o relógio de pêndulo. Instrumentos musicais são objetos com uma plástica belíssima, decoram qualquer ambiente e nesse caso, nos fazem lembrar que estamos na casa de um músico.

Detalhes rústicos da finca ibicenca: teto de madeira do quarto da Bibi, ausência de acabamentos nas portas (batentes e guarnições) e paredes espessas. Para contrapor toda essa sobriedade; a delicadeza da luminária de franjas com cara de brechó.

Como já dito, na arquitetura da finca ibicenca as janelas têm proporções menores. Isso se explica pelo fato de que quando foram construídas, o vidro ainda não existia, portanto, era importante que os moradores da casa ficassem protegidos dos saques dos piratas e dos vândalos (janelas pequenas dificultariam a entrada desses invasores). Havia também a preocupação (já naquela época!) de manter a casa mais confortável termicamente. As janelinhas garantiam pouca entrada de sol, logo, a casa ficaria mais fresca. Outra coisa que as janelas pequenas proporcionam é essa iluminação tipo uma penumbra, muito característica dos templos e salões sagrados. 

– O quintal:

Achei muito bacana como a área externa com pergolado de troncos in natura e teto de esteira de galhos se integrou com a paisagem. O deck sem tratamento (óleos ou impermeabilizantes) mantém o aspecto natural da madeira e também faz uma mescla bem sutil com a natureza.
Os móveis com cara de “faça você mesmo” encheram o lugar de personalidade. E, eu não sei por que, alguma coisa me diz que esse sofá cheio de almofadas indianas é o lugar perfeito para uma tarde de boas conversas regadas a mojitos e margaritas.

– A varanda:

Uma das coisas mais bacanas que alguém pode ter numa varanda é uma mesa para refeições. Compridona e cheia de cor como a do Lex ou pequenina e discreta, não importa!
Você pode ter um café da manhã preguiçoso de domingo, um almoço com a família no feriado, um jantar despretensioso com os amigos num dia de semana. Comer fora (mas em casa!) é um daqueles gestos simples que nos alegram e chacoalham a monotonia.

De dia, a luz natural se apodera do ambiente sem cerimônia, ilumina o horizonte e dá sensação de amplitude. À noite, com o breu, a varanda “encolhe” e o brilho indireto dos lampiões e dos castiçais conferem aconchego e um pouquinho de drama na cenografia (que linda a sombra da Lizzy na parede!).

E mais uma vez, ele, ao fundo, o sofá bohemian explodindo de almofadas, me convidando para uma ciesta depois do almoço de domingo!

– A cozinha:

A cozinha da finca ibicenca pode ser maior ou tão grande quanto o porxo.
Essa, de tamanho generoso, tem as prateleiras de alvenaria como protagonista.  O cômodo segue com as janelas pequenas, concedendo ao ambiente a tal iluminação de lugar sagrado.  A mesa comprida com cadeiras misturadas – um clássico das revistas de decoração – cai como uma luva na estética boho. Detalhe lindinho da luminária pendente de mosaico sobre a pia.

Mais exemplos de que na cozinha boho não há lugar para moderação: a coleção de pratos da vovó decoram a parede enquanto luminárias marroquinas caem do teto. Os utensílios dispostos nas prateleiras vão de narguilé a canecas em Ágatha, bule de prata e coleção de panelas de cobre.

Atenção merecida para as portas de madeira e vidro adaptadas para o nicho de alvenaria onde as taças e copos de vidro são guardados.


– Os quartos:

Os nichos das paredes seguem o padrão acomodando dessa vez os brinquedos dos netos de Lex. Detalhe da iluminação indireta para as arandelas na entrada do quarto e o globo fazendo vez de abajour.

A lareira de canto além de encher o dormitório de charme, é certeza de noites quentinhas no inverno.   

Mais do mesmo: adaptação de portas de madeiras para o nicho de livros no quarto de hóspedes.

Nota máxima para a coleção de quadros antigos que acompanha o desenho dos degraus da escada.

Não esqueça suas roupas de banho e boas férias!!!

Loving Ibiza (2013)
A-Film Netherlands
Ibiza Filmfonds, Nijenhuis & Co and FarmHouse Film and TV Productions
Escrito por Tijs Van Marle, Anne Verboon and Maarten Lebens
Dirigido por Johan Nejenhuis
Produzido por Klass Jong and Johan Nejenhuis
Diretor de Arte: Ruben Shwarts
Cenário: Tijs Van Marle, Annelou Verboon and Maarten Lebens

Casa com jeito de casa do filme “ECHO PARK”.

(Esse texto foi publicado pela primeira vez em 23 de junho de 2018.)

Poucas coisas são tão prazerosas para um designer de interiores do que entrar numa casa e entender em poucos minutos que aquele lugar pertence ao dono.

“- A sua cara! ” para mim, trata-se do maior elogio que alguém pode fazer quando visita a minha morada.

Se identifica? Então esse post vai para todo mundo que já entendeu que a decoração bacana vai (muito!!!) além de tendências, modismos e de “certo e errado”.

Na hora de decorar, o mais importante é ser honesto consigo mesmo e tentar evitar de qualquer maneira viver em um ambiente que não tem absolutamente nada a ver com você ou com o seu estilo de vida. A única regra irrefutável de decoração é ser fiel ao que você acredita, ao que você gosta, a sua realidade e ao que seja relevante para você.

Cada indivíduo tem uma bagagem de vida, uma história única e o grande desafio na hora de decorar uma casa é tentar alinhar esse combo de experiências e gostos pessoais com os estímulos externos que o mercado da decoração e do design oferece.

Se conseguirmos equacionar esses fatores com sucesso, teremos como resultado um ambiente singular e que tem tudo a ver com a gente. Não há nada mais desestimulante do que entrar numa casa cheia dos clichês “o material da vez”, “o móvel super na moda”, “ esse acessório-ultimo-grito-da-decoração” e totalmente vazia de personalidade.

O nosso espaço diz muito sobre quem somos e possui grande influência no nosso humor e na nossa maneira de viver. Morar em um lugar que a gente não se identifica é a mesma coisa que ter de conviver intensamente com uma pessoa que a gente não tem a menor afinidade.
Nosso espaço precisa ser uma continuação de quem somos. Ele é o nosso templo, nosso universo particular, é onde a gente se recarrega, o lugar que sentimos vontade de voltar no fim do dia ou depois de uma longa viagem.

No cinema e no teatro os cenários são de extrema relevância para ajudar um autor a compor uma personagem. Você pode não notar, mas um set bem feito te ajuda a entender bastante a personalidade do indivíduo em questão. Quer um exemplo? Você consegue imaginar Amelie Poulan morando numa cobertura minimalista de frente para praia? Acho que não.


A comédia romântica indieEcho Park” gravada no bairro homônimo, na cidade de Los Angeles nos Estados Unidos nos remete para uma vizinhança acolhedora, quase bucólica, de uma época onde as casas tinham uma escala simpática, cômodos de tamanho honesto e que quintal não era considerado um artigo de luxo.
Para uma época onde era possível gastar alguns minutos do dia molhando o jardim com mangueira e cumprimentar o vizinho pelo nome quando se voltava a pé da padaria. Onde os estabelecimentos comerciais tinham vitrines e janelas viradas para rua e não para corredores com ar-condicionado.

É nesse bairro que moram Mateo, Elias e o supervisor musical Alex – um cara cheio de personalidade e casa idem.

Sobre o fime:
Cansada de sua “vida ostentação” vazia e sem sentido em Beverly Hills e de um noivo egocêntrico e arrogante, Sophie usa a Sunset Boulevard inteira para separar seu presente do seu passado: muda-se para o simpático bairro Echo Park no subúrbio de Los Angeles disposta a se redescobrir como pessoa e achar um significado para sua existência. Echo Park se revela um ambiente super amigável e descontraído, com ares de “bairro daquela época”, recheado de edificações simples e originais e que tenta resistir bravamente ao fenômeno da gentrificação. Lá ela encontra Alex, um supervisor musical inglês que, depois de muito tentar, desiste do seu “sonho Hollywoodyano”. Apesar de adorar a Califórnia, Alex decide voltar para o seu país de origem pois recebeu uma proposta de emprego irrecusável. Num clima de chegadas e partidas, em meio a caixas de papelão, compra/venda de móveis e os desapegos que as mudanças exigem, Alex e Sophie tentam aproveitar ao máximo a companhia um do outro até o inevitável momento onde terão que escolher entre seguir com seus planos pessoais de vida ou se entregar ao que estão sentindo um pelo outro. Ah! Tudo isso embalado pela ME-LHOR trilha sonora de todos os tempos!!!

– A fachada:

Construída num terreno de declive, a casa é bem recuada e o acesso se dá por uma escada lateral.  O jardim começando no nível da rua e escalando o terreno deixa a edificação e a vizinhança super agradáveis. Gosto muito dessa ideia de entradas que de certa forma criam uma pequena expectativa ao visitante até que se chegue na habitação.

As telhas de cerâmica, as grades ornamentais, a varanda, as paredes brancas e a linha do telhado assimétrica evidenciam a influência da arquitetura espanhola colonial muito comum e presente no estado da Califórnia.

– A sala de estar:


Entender o tamanho do espaço, suas limitações e ter uma boa noção de como vamos utilizá-lo é o primeiro passo para fazermos escolhas inteligentes.

A pequena sala de estar – como muitas hoje em dia – não tem mais a TV como ponto focal. Se o local for usado apenas para sentar e embalar longas conversas com os amigos, nada melhor do que disponibilizar sofá e poltrona um de frente para o outro. A ausência de mesinha de centro facilita a circulação. Pufes dão conforto extra para as cadeiras de leitura e servem de apoio para bandeja de drinks numa festinha informal.

As cortinas translúcidas amenizam a intensidade da luz natural. Ao dissipar a luminosidade que vem da ensolarada Califórnia, reparem como elas deixam o ambiente com uma claridade menos saturada e super aconchegante.
A porta de entrada tem folha de vidro e persiana de rolinho para garantir a privacidade quando necessário.

A apatia das paredes brancas foi quebrada pela combinação de fotografias (de viagens, lugares preferidos e “fotos conceito”) em molduras de diferentes cores e tamanhos: uma excelente saída principalmente se a grana estiver curta para investir em arte.
Livros dão volume e colorem o ambiente. Arrumados na estante ou empilhados no chão, são um excelente recurso de decoração e dizem muito sobre você.
E para terminar, mil pontos para a escolha do mobiliário com ar modernista em madeira cor de mel e tecidos neutros.

– A sala de jantar:

Ser quem você é na decoração implica em usar a casa para suas necessidades e sempre ao seu favor. Nem que isso custe quebrar algumas convenções. Alex é supervisor musical e como tal, possui uma coleção incontável de discos e CDs. No nicho da sala de jantar, em vez do tradicional armário para louças, uma estante sob medida para acomodar o estimado acervo do rapaz.

Luz pendente sobre a mesa deixa o mais corriqueiro dos jantares com clima de festinha. Fotografia oversize e uma plantinha discreta próxima a estante decoram o ambiente. A mesa redonda com proporção adequada deixa o espaço com fluidez no ponto.

– O quarto:

Honestamente, o quarto do Alex de início não provoca grandes emoções, mas aos poucos conquista pela simplicidade. Gosto da coerência de estilo se repetindo na paleta de cores neutras, nas cortinas (agora não tão fluidas) dos janelões para varanda (como deixam o quarto acolhedor!!!), nas fotografias da parede e nos móveis e luminárias. Destaque para a cadeira de balanço LARS (Ray and Charles Eames) bem no cantinho, servindo de “cabide” para as roupas usadas (quem nunca?). Uma manta com desenho gráfico p&b contrasta com a roupa de cama branca.

– A varanda:

Eu não sei se eu começo pela cerâmica vermelha desbotada (outra influência da arquitetura espanhola colonial), pelo guarda-corpo de ferro torcido com desenho vintage, as cadeiras de plástico trançado (inspiradas na icônica Acapulco), a mesa de madeira apoiando velas e revistas, os potes de barro com suculentas gigantes ou o fato dela ser to-di-nha aberta. Eu só sei que eu seria capaz de morar nessa varanda e que todas as “sacadas gourmets” e invencionices do gênero poderiam voltar para seu lugar de origem pois não fariam a menor falta para mim!

– A mudança:
Conforme o filme vai passando, a casa de Alex vai se transformando. Primeiro, caixas de papelão começam a aparecer timidamente nos cantos da sala e do quarto. Em seguida, um objeto aqui outro acolá desaparecem. A mudança vai tomando o seu curso natural em paralelo com a evolução do relacionamento de Alex e Sophie. Em dado momento você percebe que a casa deixa de ser apenas um cenário e passa a ser um componente importante da história, quase que um personagem; responsável por marcar a passagem do tempo e ser o ponto de interseção entre o fim da historia de um e o começo da história de outro.

Iluminação:
O poder do abajour! Ainda que sua casa esteja sob o caos de uma mudança e sua sala não tenha sequer onde se sentar, lance mão da luz indireta de uma linda luminária para criar um clima bacana naquelas ultimas festinhas de despedida. Com design retrô, base de cerâmica colorida, haste comprida de madeira e cúpula oversize; esse abajour do Alex não só enche o ambiente de charme durante a noite como também se transforma em uma bela peça de decoração durante o dia.

Eis que ao final, a casa fica completamente vazia, se transformando em uma tela em branco, preparada para uma nova história que está por vir.

Muito diferente do que vemos por aí, Alex preferiu manter as paredes contrariando a popular estética do “conceito aberto”que integra os ambientes e amplia o espaço. Apesar de todas as virtudes do conceito aberto, devo confessar que gosto muito da possibilidade de criar cantinhos e pequenos nooks que somente uma casa com paredes pode oferecer.

– Eu também, Sophie!!!!

Echo Park (2014):
Array Productions
Turntable Studios
Escrito por Catalina Aguilar Mastretta
Dirigido por Amanda Marsalis
Diretor de arte: Todd Davis
Decoração de cenário: Joni Noe
Produção de Design: Soonja Kroop
Assistente de arte: Ryland Bums

O estilo industrial do filme “Um senhor estagiário” (THE INTERN)

(Esse texto foi publicado pela primeira vez em 15 de junho de 2018)

Talvez uma das mais difundidas e populares nos dias de hoje, a estética industrial surge com muita força e se estabelece como um conceito de decoração no início dos anos 2000, principalmente na costa leste dos Estados Unidos, na cidade de Nova York.

Espaços onde no passado funcionavam fábricas, galpões e oficinas de toda a sorte, hoje abrigam os chamados lofts – amplos apartamentos que se aproveitam dos acabamentos (ou da falta deles!), da exuberante incidência de luz natural e da generosa altura dos pés-direitos desses antigos edifícios.

É interessante e curioso ver estes espaços – por vezes hostis e impessoais – onde no passado era possível apenas ouvir o barulho de máquinas e grandes engrenagens trabalhando a todo vapor, agora transformados em acolhedoras áreas de convivência cheias de personalidade e estilo.

A criatividade dos arquitetos e interior designers levaram o look industrial não só para as residências como também para as áreas comerciais. Atualmente, não raro é esbarrar com uma loja, um restaurante, um estúdio e até um escritório nos grandes centros urbanos que não tenham a marca da plástica industrial e suas características peculiares.

O cenário da empresa About the Fit do filme norte-americano “The Intern” é um bom exemplo disso.
Eu confesso que sou fã de Nancy Meyers (diretora e roteirista), não só por ela saber explorar as relações humanas e pequenos dilemas existenciais contemporâneos com leveza e muita graça, mas também porque os sets de seus filmes são invariavelmente uma grande fonte de inspiração para qualquer amante da arquitetura e do interior design.

Sobre o filme:
Aulas de yoga e thai-shi, viagens para destinos paradisíacos, amizades coloridas, netinhos… Ben Whittaker tentou de tudo para preencher as horas ociosas da sua vida de aposentado viúvo. Com décadas de experiência em administração de negócios e disposição de sobra, decidiu voltar a trabalhar e se inscreveu num programa de estagiários da terceira idade. Após um rápido processo de seleção, foi contratado pela empresa de Jules Ostin, a dona do e-commerce “About the Fit” – uma típica millenium que, sozinha, construiu um pequeno império digital de moda. Os dois com personalidades e bagagens bastante distintas nunca imaginaram o quanto poderiam aprender um com o outro e que dessa inusitada relação nasceriam uma grande parceria de trabalho e uma amizade pra lá de bacana!

A About the Fit é uma empresa de comércio digital no ramo da moda que funciona numa antiga fábrica de catálogos telefônicos em Red Hook, Brooklin. “We are all about communication and team work” (Nosso lema é comunicação e trabalho em equipe) diz um dos funcionários da ATF ao recepcionar o novo time de estagiários.

Para uma firma com esse tipo de filosofia, a planta aberta pode ser uma excelente opção. Entretanto, muitas são as polêmicas que giram em torno do famoso layout “open space” (planta aberta) no mundo corporativo.

O layout “planta aberta” basicamente consiste em derrubar paredes e divisórias com o propósito de não só aumentar o espaço interno, mas de promover maior interação entre os funcionários. Uma tentativa de horizontalizar um pouco as hierarquias (todos trabalham no mesmo ambiente: do assistente ao gerente). Somado a isso, há também alguns benefícios de ordem prática que vão desde a limpeza do local e manutenção de equipamentos à economia de energia.

As maiores reclamações dos profissionais que trabalham em escritórios abertos são a falta de privacidade visual (computador) e o barulho. Além disso, alguns estudos já mostraram que nem todos esses benefícios práticos acima listados puderam ser devidamente comprovados.

Divergências a parte, o certo é que há muito tempo esse tipo de conceito de planta vem sendo utilizado em alguns ramos da indústria como redações de jornais e revistas, agências de publicidade e escritórios de arquitetura e design. Mas agora tenta-se expandir a ideia para outros nichos, principalmente para o dos negócios digitais como a “About the fit”:

Seja bem-vindo!

A fachada:

Típica e inconfundível: fachada industrial de tijolinhos aparentes e grandes janelas com armação de metal. Gosto muito da discrição do letreiro da firma. Sem excessos ou grandes firulas.

A rua e os olhos de quem passa sempre por ali agradecem!

– A sala comum:

Uma foto e muitas referências: a ausência de paredes dá amplitude e profundidade ao espaço. O chão de cimento, tetos sem acabamento, rebaixamento ou tratamento acústico (reparem nos tubos de ar condicionado, água e elétrica aparentes), a sequência de colunas e vigas. A altura do pé-direito e a profusão de luz natural.

Mobiliário discreto, de linhas retas e cartela de cores neutras (branco, preto e cinza): duas decisões espertas para evitar conflito visual com os produtos de moda geralmente ricos em cores e formatos.

Tudo junto e misturado: as mesas de trabalho emparelhadas garantem comunicação rápida e facilitam o trabalho em equipe, dizem os defensores da planta aberta.

A iluminação fica a cargo das luminárias pendentes: uma característica proeminente do estilo industrial. É importante observar a altura na hora da instalação de modo a maximizar sua eficiência. Reparem (abaixo) que para dar maior destaque à sala privada, uma pequena desobediência no padrão: a luminária preta é substituída por uma “Discocó” (Christophe Mathieu) branca:

Os tijolos aparentes da fachada se repetem em alguns espaços internos. Ora em sua cor original, ora pintados de branco (abaixo) suavizando de certa forma o componente visual. O chão de pranchas de madeira aquece o ambiente enquanto as tubulações elétricas deslizam sem pudor pelas paredes.

– A sala de espera

A sala onde Ben espera para ser entrevistado é um ambiente simples, de cores neutras mas nem por isso pouco interessante. Os sofás e poltronas de linhas retas em tecido off-white fazem um belo contraste com a parede escura. A mesa de centro de design moderno chama atenção pelo volume. O tapete de sisal é uma boa pedida para ambientes de grande circulação: além de fáceis de limpar, são resistentes e não acumulam muita poeira. Destaque para as luminárias de chão bacanérrimas “Grashoppa” (Greta Grossman) juntos às mesinhas laterais.

– As salas de reuniões ou os espaços privados:

As salas privadas podem ser utilizadas tanto para reuniões como para pequenas conversas e assuntos que exigem sigilo. As divisórias de vidro e metal se encarregam de isolar os barulhos e demarcar o espaço. Elas obedecem ao padrão dos janelões em arco da antiga fábrica. Gosto muito dessa coesão e repetição de materiais.

E se o problema for privacidade visual, persianas de rolinho podem dar conta do recado:

Outro recurso para dar destaque à sala de reuniões e também promover conforto térmico e sonoro é o carpete.  Embora o cimento e o carpete tenham texturas completamente diferentes, nesse projeto eles atendem a mesma cartela de cores garantindo harmonia visual ao ambiente como um todo.


– Definindo espaços:

O tapete pode ser um grande aliado do designer quando o desafio é a criar pequenas áreas para diferentes funções num layout de planta aberta. Um espaço dentro do espaço, digamos assim.  A essa técnica dá-se o nome de “zoning” (zoneamento). As fotos abaixo são um excelente exemplo de zoning: perceba que uma salinha de estar (que pode ser usada na pausa do café ou recepcionar um cliente) foi concebida no meio do escritório, bem ao lado das estações de trabalho. Podemos salientar que a posição dos sofás também favoreceu a origem do novo “cômodo”. Esse é um excelente recurso para criar uma atmosfera intimista dentro de um espaço muito amplo e, nesse caso específico, quebrar um pouco da monotonia que ambientes corporativos tendem a ter. Embora inusitada, a salinha segue com congruência a paleta de cores do projeto e com a discrição das linhas retas do mobiliário. O charme foi garantido pelas almofadas e o vaso de rosa vermelhas.

– A sala (não-sala) da chefa:

Lembra da história de horizontalizar as hierarquias? Pois é.  O escritório da Jules – chefona da About the Fit – é junto aos funcionários, num cantinho em frente a uma grande sala de reuniões. Isso permite que a líder esteja sempre disponível, acessível ao staff e claro, tomando conta de tudo (Jules é conhecida pela dificuldade de delegar tarefas e micro-gerenciar a ATF.). A única coisa que a separa do resto de sua equipe é o lindo tapete de sisal embaixo da mesa (olha o zoneamento aí de novo!!). Adoro a composição com as cadeiras de acrílico “Victoria Ghost” (Phillippe Starck) e a luz difusa do abajur que deixa o espaço super aconchegante!

– A sala de entrevistas:

Numa sala onde janelas, paredes e radiadores são brancos, vale confrontar a neutralidade com ousadia não só na tonalidade dos elementos de decoração como também no mix de estilos: a modernidade da cadeira “Eames DSW” (Charles and Ray Eames) em rosa pink e da mesa lateral “Tulip” (Eero Saarinen) contrastam com o jeito meio cigano das estampas Boho no tapete de franjas e na almofada bordada, ambos de cores quentes. Para aquecer ainda mais o ambiente; mesinha de centro em madeira reciclada. A estante de metal com rodízios e o chão de cimento imprimem o selo da estética industrial. E lembrem-se: na falta de espaço nas paredes, quadros ficam ótimos arranjados no chão!

– A cafeteria:

Já em ambientes onde a base de cor é mais escura, toda luz natural precisa ser aproveitada. A ideia de cobrir as janelas com móveis estaria totalmente fora de cogitação se não fossem essas estantes de linhas retas e estrutura simples construídas com vãos enormes entre as prateleiras possibilitando a entrada da claridade e garantindo espaço para armazenar os acessórios transparentes da cafeteria. As cadeiras “Eames DSW” (Ray and Charles Eames) brancas fazem belo contraste com o chão de madeira desgastada. Lindo!

– Trabalho em equipe:            

Apesar de se tratar de um blog de decoração não posso deixar de pontuar o trabalho de equipe entre os designers de cenário e figurino desse filme. Como vimos acima, a cartela de cores escolhida para a About the Fit é super neutra (cinza branco e preto) sendo assim, Jules é vista vestindo vermelhos e magentas de forma recorrente. Uma forma bem sacada de destacar a personagem principal numa fotografia quase sempre abarrotada de informação!

The Intern (2015)
Warner Bros. Pictures
Escrito e dirigido por Nancy Meyers
Produção: Waverly Films
Diretor de Arte: Dough Huszti
Decorador de Cenário: Suzan Bode-Tyson
Assistente de Decoração: Sarah Dennis
Consultor de Design: Mark D. Sikes
Property Master: Peter Gelfman