
(Este texto foi publicado pela primeira vez em 25 de julho de 2018.)
Cada vez mais (e mais) me atraio por decorações despretensiosas, que passam bem longe do “combinadinho” como os espaços planejados de um showroom. Já estou convencida de que a beleza de um lugar tem muito mais a ver com a sensação que ele provoca do que com uma lista de convenções estéticas.
Não ceder ao rompante de ter tudo organizado o mais rápido possível é tarefa das mais difíceis no processo decorativo. Mas esse esperar pode ser muito mais recompensante do que se imagina, sabe por que? Porque a decoração que acontece aos poucos traz uma carga de personalidade bem característica daquilo e daqueles que sabem usar o tempo ao seu favor.
É como o processo de colecionar.
Uma coleção requer curadoria apurada, esperas, circunstâncias inusitadas, paciência, acasos, sorte, e leva tempo para se formar. Uma coleção bacana traz com ela um bom par de histórias sobre aquisições e motivações que o levaram a adquirir cada peça – uma mais diferente do que a outra. E o mais bacana: ela nunca acaba. Assim é a decoração.
Coisas com histórias são sempre mais interessantes e deixam de ser apenas coisas.
No filme brasileiro “Aquarius” temos uma boa mostra de decoração que, ao que parece, a única obediência seguida foi o curso natural do tempo. O resultado é um repertório de elementos com idades díspares mas que conversam harmoniosamente entre si e que juntos ilustram o trajeto de uma história de vida.
Além disso, a produção marca a relação quase que orgânica de uma moradora e seu lar, ratificando o conceito de que uma casa não se resume a apenas um quadrado de cimento e tijolos.
As narrativas particulares de uma residência, que vão desde a sua construção (ou obtenção) passando pela escolha de cada peça e ainda seu infindável acervo de casos e situações triviais do dia a dia, agregam um valor inestimável ao espaço onde se habita. Para Clara – a protagonista de Aquarius – assim como para muitos, a memória afetiva é algo que não se põe preço, não se quantifica e é no que consiste a verdadeira beleza de um lugar.
Sobre o filme:
Clara é uma crítica de música e jornalista que exala personalidade por todos os poros. Daquelas pessoas que não se aderem a modismos ou tendências a não ser que elas tenham uma boa dose de cabimento. Dona de uma história que passa pelo tratamento de um câncer, morte de entes queridos e abstenções familiares em decorrência de seu trabalho, ela carrega consigo um misto de força e segurança extraordinário, bem típico daqueles que tiveram atitude e garra para enfrentar os desafios impostos pelo destino.
E é naquela altura da vida, onde tudo parece se acalmar (filhos criados, dramas superados, estabilidade emocional), que a Bonfim Engenharia surge em seu caminho.
Uma empresa de olho (bem grande) na localização super privilegiada do Edifício Aquarius – lugar onde a jornalista vive e viveu desde sempre.
Movido pela ganância e com a desculpa esfarrapada do progresso (progresso pra quem?), o arquiteto responsável pelo projeto – que consiste em transformar o simpático prédio de Clara em uma torre de 30 andares de design duvidoso e nome cafona – usa de práticas escusas na tentativa de forçá-la a vender seu imóvel, dando como garantia a certeza de um estilo de vida melhor e moderno.
Sendo a única moradora do prédio que não caiu no “canto da sereia” da construtora, Clara passa então a vivenciar uma série de situações desagradáveis e até humilhantes propositalmente armadas para que ela desista de estar ali.
O que os executivos da Bonfim Engenharia não esperavam era que aquela senhora de fala mansa e serenidade no olhar se tratava de uma mulher forjada por uma história de vida nada fácil, que sempre lhe exigiu perseverança e potência para driblar as adversidades que cruzaram o seu caminho.
O filme trata sem desvios a questão impiedosa da especulação imobiliária (baseada numa história real, na cidade do Recife) mas ao mesmo tempo retrata de uma maneira super humana e com pequenas doses de doçura a vida de uma mulher que além de colecionar memórias afetivas de família em seu adorável apartamento, é imbuída de coragem e sabedoria até o talo para fazer valer o que ela quer e, principalmente, o que ela acredita.
– A FACHADA
1980:

O Edifício Aquarius na vida real se chama “Oceania” e se encontra na Avenida Boa Viagem, na praia do Pina, no Recife. O professor Múcio Jucá do Departamento de Arquitetura e Ubanismo da Unicap na página “Prédios do Recife” no FaceBook, explica que: “-o edifício Oceania representa um dos últimos remanescentes desse tipo arquitetônico de edifícios residenciais multifamiliares de meados do século XX. O Oceania apresenta características tipológicas de uma fase de transição dos residenciais multifamiliar, neste caso, mais próxima da arquitetura de casas tradicionais do que edifícios construídos nas décadas seguintes.
O conjunto está implantado em “L”, garantindo um amplo pátio interno que configura a relação casa – quintal. A configuração de térreo (recuado) mais dois pavimentos, garante a horizontalidade e proporção mais próxima da residência tradicional. Outra peculiaridade é o uso de coberta em telha cerâmica, com beirais. Além disso, o edifício foi concebido com afastamento frontal, para os apartamentos voltados para a Avenida Boa Viagem, e afastamento nulo, ou no paramento, para a rua lateral. Este afastamento frontal permite, aos apartamentos térreos, usufruir de jardins típicos de residências, garantindo uma ambiência bastante peculiar.”
2017:


Quando o tempo nem sempre ajuda: as janelas de guilhotina em madeira, as venezianas e os guarda-corpos decorados deram lugar a feiosas esquadrias de alumínio.
Em compensação, foram mantidos o jardim frontal – para a alegria dos moradores do térreo – e belíssimo telhado colonial que dá ao prédio o aspecto de “casinha”.
A SALA DE ESTAR:
1980:


2017:

Muito diferente de hoje em dia, o apartamento foi construído numa época onde a prioridade ainda era o bem-estar do morador. A sala tem tamanho digno e é divida em dois ambientes: estar e jantar como vemos nas fotos da festa. Com o passar dos anos, a área destinada às refeições dá lugar a uma linda sala de música onde hoje ficam o piano, a vitrola e a coleção de vinis da crítica de música. Vale destacar o olhar aguçado da proprietária para as peças que não foram descartadas apesar das repaginadas que o décor sofreu.

Por outro ângulo: a mesinha lateral de jacarandá e tampo de mármore lá dos anos 60 faz contraponto com o sofá contemporâneo de linhas retas. A cor neutra do estofado permite que as almofadas com estampas ikat e o tapete com ares do oriente sejam super coloridos. A TV não tem protagonismo e quase se esconde atrás da coluna que separa a varanda. Duas cadeiras THONET (Michael Thonet) posicionadas de frente para o sofá facilitam a conversa e completam o ambiente do estar. A sala de jantar foi lançada para mais perto da cozinha como vemos ao fundo.


Os livros que se acumulam (graças ao tempo!) fizeram com que o estar ganhasse estante de alvenaria branca. Já falamos por aqui o quanto livros alinhados em prateleiras enchem um ambiente de beleza e personalidade.
O vão no centro do móvel foi preenchido com tapeçaria colorida, plantas e esculturas.
Dica: para dar um efeito visual interessante na estante, não tenha medo de misturar elementos de diferentes formas e alturas.
Na linha de transição da varanda para a sala, cadeira de madeira e couro natural com design moderno que muito lembra a SAFARI do suéco Arne Norell.
– A SALA DE MÚSICA:


As estantes sob medida organizam as coleções de discos (e que coleção!!!) da jornalista e fazem vez de moldura para o antigo piano. O chão frio de cerâmica (um pouco desprezado ultimamente) acaba por ser um revestimento bastante adequado para o clima quente característico do Nordeste brasileiro. O tapete na área da sala de música auxilia na acústica do ambiente. E se você é amante de peças de design já percebeu que Clara nutre a mesma paixão, em especial por poltronas e cadeiras. Aqui, na sala de música, o destaque vai para a poltrona MOLE (Sérgio Rodrigues).


Clara não se rendeu às tecnologias digitais de CD’s e MP3. É na sua antiga vitrola que a jornalista põe para tocar a trilha que embala a sua vida. O aparelho fica a vista e não escondido dentro de móveis desconjuntados e arcas de madeira como muito se vê por aí.
Tapeçarias funcionam bem na parede, se emolduradas ganham ainda mais importância.
Embaixo da janela, as cadeiras estofadas com tecido retrô engordam a coleção de peças de design da dona do apartamento.
– A SALA DE JANTAR:


Posicionada mais perto da cozinha, a sala de jantar minimalista conta com mesa de tampo de vidro que agrupa as cadeiras tubulares B32 (Marcel Breuer). O pôster tamanho GG do filme Barry Lyndon (S.Kubrick) de 1975 se encarrega de preencher o vazio da parede branca. Luz pendente de mosaicos de vidro e no chão, a simplicidade elegante do tapete de sisal.

O nicho virado para a sala de estar tem porta de vidro para exibir de propósito a coleção de louças antigas.

O armário de madeira que pertenceu a tia Lúcia, é daquelas relíquias de família que trazem uma carga de afetos e lembranças inestimáveis. Muito versátil, ele vai da sala de jantar ao quarto, podendo ainda servir de aparador no hall de entrada ou até mesmo de paneleiro numa cozinha super rústica. Com design atemporal, é o tipo e mobília que só melhora com o tempo!
– A COZINHA


Decoração bacana para mim envolve entre muitas coisas, uma boa dose de imprevisibilidade. Um quadro não necessariamente com a temática de comida (Femme III – Miró, 1965) e um boneco gigante de madeira enfeitando a parede dos temperos são dois elementos surpresa que deixaram a cozinha da Clara como uma assinatura que é só dela!


Falando em elementos inusitados, não posso deixar de falar sobre os cobogós usados um pouco acima do frontão da pia.
Ao passo que fazem uma pontuação cênica super bem sacada (os cobogós foram criados em Pernambuco, onde o filme se passa) trazem também a questão: seriam práticos numa casa “de verdade”? Por serem vazados, proporcionam ao ambiente ventilação e luz natural em abundância nos dias ensolarados. Maaaaas… e quanto chove??? E a poeira que vem da rua? E os insetos? Questões a serem consideradas caso você tenha se inspirado nesse clássico da arquitetura brasileira.
– A VARANDA:

Poucas coisas representam tão bem o morar brasileiro quanto uma boa rede rendada. Para ler um livro, ouvir um disco, namorar ou tirar aquele cochilo. E se você tiver a sorte de ter o mar como vizinho, abra um pouquinho a janela pra que a brisa e o barulho das ondas embale os seus sonhos.

Quando não está sendo usada, a rede fica recolhida dando espaço para plantas e outros aparatos como o lindo banco balinês e as esculturas de madeira.
– A casa à noite:
Já não é novidade pra ninguém que aqui no ACDC a gente é defensor dessa camada de luz, a indireta, responsável por proporcionar um clima super intimista e aconchegante na casa. Nem vou me estender muito, apenas deixá-los com essa sequência de fotos noturnas onde as claridades difusas deixam o apartamento ainda mais especial…
… e Sônia Braga mais diva!
Ah! Uma dica preciosa: use SEMPRE luz quente de baixa voltagem. 😉







Aquarius (2016)
CinemaScopio/SBS/GloboFilmes
Escrito e dirigido por: Kleber Mendonça Filho
Produzido por: Emilie Lesclau, Said Ben Said, Michel Merkt
Direção de arte: Juliano Dornelles e Thales Junqueira


































































